Conto 18.3: Uma Historia de Natal

snow Nada melhor para comemorar a véspera de Natal do que mais uma parte de um conto natalino. Nessa parte Jack Wolf finalmente chega ao Polo Norte e foi divertido imaginar como á fabrica do Papai Noel funcionaria no século 21, afinal uma casa de madeira fabricando bonecas e carrinhos não seria muito útil nos tempos em que vivemos. Eu devo admitir que cada vez mais o detetive ranzinza Wolf ganha um pedaço no meu coração como uma de minhas criações favoritas. Escrever ele é divertido pra caramba. Com o natal amanhã eu tenho uma surpresa preparada então eu aconselho ficar de olho aqui no blog.

3

 

Rick me guiou ate o maior dos prédios do complexo, não era preciso ser um detetive para adivinhar que era o coração da fabrica. Diferente dos outros prédios do complexo que eram extremamente simples como blocos de concretos com chaminés o prédio principal era algo especial. Ele é um desses prédios modernos que parecem ser feitos de metal retorcido e que não fazem o menor sentido. Eu realmente acho as caixas de concreto atrás de mim bem mais bonitas. Seguimos adentro do prédio por uma imensa porta dupla de vidro e o hall de entrada era sem duvida algo de primeiro mundo.  Era uma imensa sala redonda com uma replica da Terra no centro, uma pequena miniatura do Papai Noel no seu trenó voava em volta do globo dando a volta nele vezes e mais vezes. Abaixo do globo existia um balcão onde um duende comicamente vestido de terno e grava, mas ainda com seu chapes de Peter Pan, falava no telefone. Eu conseguia ouvir ele gritando com um outro duende do outro lado da linha que mesmo com a morte do Sr. Noel a produção não podia parar e que os duendes trabalhadores ainda não podiam escutar a noticia para o pânico não dominar, burocratas. Rick fez um gesto com a mão para eu segui-lo, como se eu pudesse simplesmente virar e ir embora a essa altura. Finalmente o duende no balcão abaixo do globo nos viu e gritou.

-Deus já estava na hora Rick. – Ele parecia à beira de um ataque de nervos e mais uma vez seria trágico se não fosse completamente cômico. – A Senhora Noel estava me deixando louco. Esse é o detetive?

-Ele diz que é. – Respondeu meu querido amigo Rick.

-É o bastante para mim. – Responde o outro duende. – Vou ligar para a Senhora avisando que vocês chegaram.

Ele voltou para o telefone e discou outro ramal. Uma voz feminina atendeu do outro lado e ela parecia irritada, no momento em que ela atendeu eu pude sentir o cheiro de pânico no pobre duende a minha frente. Ele avisou que Rick e o Detetive, eu, tinham chegado, mas o animo da mulher não pareceu animar muito. Ela mandou avisar que estava descendo e desligou o telefone na cara do pobre duende. Eu pude ver o alivio surgir no rosto dele quando recolocou o telefone no gancho. Estava obvio para mim quem estava no comando da fabrica com o Senhor Noel afastado e também estava obvio que era um comando no estilo punho de ferro.

-A Senhora Noel mandou avisar que está descendo.

-Sim eu escutei.

-Você conseguiu escutar o outro lado da linha? – Perguntou Rick surpreso ao meu lado. – Talvez você seja tão bom quanto dizem.

-Eu sou melhor. – No fundo isso poderia ser verdade se eu não passasse boa parte dos meus dias enfiando a cara na bebida em vez de trabalhar de verdade, mas isso não vem ao caso. Como eu disse no meu emprego impressionar o cliente pode te levar longe, tinha conseguido isso com o pequeno Rick e agora era a vez da Mamãe Noel, mas a vozinha de bom senso da minha cabeça dizia que seria preciso mais do que uma boa audição para isso. Como eu odeio a vozinha de bom senso da minha cabeça.  Foi nesse momento que algo capturou minha atenção, na verdade um cheiro capturou minha atenção. Vindo das escadas no fundo da sala e a primeira coisa que eu vi quando eu olhei para lá foi um par de pernas e meu deus que pernas. Eu sempre imaginei a Mamãe Noel como uma mulher do tipo vovô cozinheira e não como o que eu estava vendo. Ela vinha usando uma saia que cobria ate as alturas do joelho, mas a saia era tão apertada que eu ainda conseguia ver perfeitamente todas as curvas. Ela usava um paletó tão apertado quanto à saia e que realçava bastante o seu busto. Seus cabelos eram de um vermelho intenso e corriam soltos ate a altura da cintura. Olhos verdes brilhantes como esmeralda. Era uma mulher pela qual homens morreriam e matariam apenas pela sua atenção.

Por que eu tenho a impressão de que esse foi o caso?

Ela terminou de descer as escadas e veio andando ate a minha direção. Eu podia ver que Rick estava tão apavorado quanto o duende no balcão e eu acho que agora eu entendia o motivo. A visão dela descendo a escada tinha sido capaz de me deixar sem palavras por alguns bons segundos e isso vindo de um cara que acabou de voar em um maldito trenó puxado por renas. Ela mandou Rick sumir de vista com apenas um gesto de mão e depois se pós a me examinar com aqueles brilhantes olhos verdes. Eu consegui ver Rick correndo para longe pelo canto do olho. Enquanto isso a expressão no rosto dela era de um tipo de decepção.

-Eu esperava mais de você senhor Wolf. – Sua voz era doce e soava de forma harmoniosa que por um segundo foi capaz de me fazer esquecer os sons da fabrica do lado de fora. Droga Wolf se controle, mantenha o foco seja profissional. Ah que inferno como se eu tenha sido profissional em algum momento da minha vida. – Eu estava esperando um tipo Brad Pitt, mas você é bem comum se eu o encontrasse na rua nunca acharia que estava vendo uma das armas do Grande Homem.

-Nem todos podem ser jovens e bonitos por toda eternidade. Creio que foi o seu marido que morreu?

-Ele não morreu, ele foi assassinado. – A voz era firme, talvez firme demais para alguém que acabou de perder o marido.

-Isso eu vou determinar. Agora podemos ir aos negócios? Quero terminar logo esse trabalho.

-Claro. – Ela sorriu para mim, estava tentando ser simpática, mas seu sorriso era completamente frio.- Vamos aos negócios.

Eu não gostei nenhum pouco dela. Claro ela era bonita como os infernos, mas no meu ramo isso normalmente vinha junto com problema. Aposto que daqui a algumas horas eu vou me arrepender muito de não ter bebido ate desmaiar essa noite e simplesmente não ter sido capaz de acordar com a campainha. Ela pediu para que eu a seguisse. Seguimos ate o fundo da imensa sala redonda em direção as escadas.

-Em um dia normal essa sala estaria cheia de duendes correndo de um lado pro outro, mas hoje estamos tentando manter a situação sobre controle. – Ela falou enquanto caminhávamos. –Eu estou apavorada, quando a noticia do assassinato vazar estaremos em uma verdadeira confusão.

-Eu posso imaginar.

Subimos a escada e continuamos a nos aprofundar no prédio de controle do complexo de fabricas do Papai Noel. O Segundo andar era formado por diversos corredores e portas que funcionariam perfeitamente como um labirinto, mas por sorte eu tinha entrado ali com uma guia que me levou direto a uma imensa porta dupla de madeira negra no fim de um dos corredores. Na porta estava escrito “Escritório do Senhor Noel”. Eu conseguia sentir o cheiro de sangue e morte lá dentro mesmo estando do outro lado da porta. Ela abriu a porta dupla com uma chave cartão e apontou para que eu entrasse.  O escritório de Noel era um escritório digno de um empresário podre de rico. Uma imensa mesa de madeira no fundo e atrás dela uma janela com visão para o complexo tomava o lugar de uma parede.  Porem não foi a vista que captou meu olhar e sim o grande cadáver gordo sentado em uma cadeira atrás da imensa mesa de madeira. Ele era exatamente como as historias contam, uma barriga imensa, uma longa barba e cabelos prateados. Estava enfiado em um terno vermelho, mas não conseguia ver o gorro em lugar nenhum, acredito que esse ele só use nas noites de trabalho. Outro fator interessante sobre a sala é que tinha sangue espalhado por todo o canto, nas paredes, na mesa de madeira, no chão e ate mesmo um pouco no teto. Eu não precisei procurar a fonte do sangue. Ele provavelmente tinha vindo do imenso corte de ponta a ponta da garganta do velho Noel. Sem duvidas não era uma imagem bonita.

-Agora acredita que foi assassinato? – Falou a viúva parada do meu lado. Sua voz mantinha um tom controlado, mas eu conseguia sentir um pouco de histeria nela. Era um bom sinal, aquela cena estava perturbando ela, um sinal de que ela não era a vaca sem coração que eu estava esperando.

– Não. Eu tenho sempre que pensar em todas as possibilidades possíveis. Ele esta morto a quase doze horas da pra sentir pelo cheiro. O que você estava fazendo durante esse tempo? Escondendo a arma do crime?

Uma dica, nunca vire as costas para uma mulher. Eu consegui a vibração do vento, escutar a mão se aproximando, mas mesmo assim não fui rápido o bastante para esquivar do tapa que me acertou em cheio no lado do rosto. Por um segundo o mundo todo girou enquanto eu recuperava minha compostura. Droga aquela mulher tinha uma mão pesada feito os infernos.

-Como ousa pensar que eu poderia ter feito isso? Ele é meu marido! – Qualquer controle que tinha na voz sumiu e ela foi substituída por pura raiva. Outro bom sinal.

-Belo tapa, o mundo todo girou por um segundo. – Eu podia sentir o gosto de sangue na minha boca. – Como eu disse Docinho eu não posso descartar nenhuma opção ainda, mas se isso te deixa feliz eu não acho que você seja a assassina.  Talvez uma planejadora ou cúmplice, mas não a assassina.

Dessa vez eu consegui segurar o braço dela antes da sua mão acertar o meu rosto. Lagrimas estavam começando a descer furiosamente do seu rosto. Ela realmente foi afetada pela morte do marido ou era uma bela de uma atriz. Por enquanto eu vou pensar que a vaca fria que me atendeu era ela apenas tentando manter o controle. Eu a arrastei para fora da cena do crime e fechei a porta dupla.  Alguns duendes estavam esperando curiosos do lado de fora, entre eles meu amigo Rick.

-Rick! – Chamei. – Consiga alguma bebida forte para a Senhora Noel aqui. – Ele saiu correndo para dentro do labirinto de corredores. Um duende tinha trazido uma cadeira e eu repousei a Senhora Noel nela. Sem tempo para bancar o suporte para uma garota em prantos, tinha trabalho a ser feito. – Pare de chorar, eu estava te testando e você passou nele. Agora eu tenho que cuidar da cena do crime.

-Você é um grande bastardo sabia? – Ela ia aos poucos recuperando o controle, porem as lagrimas ainda desciam sem controle pelo seu rosto.

-Sim todo mundo me diz isso. Agora espera aqui enquanto o Rick volta com sua bebida eu tenho que voltar para dentro da sala do seu marido e dar uma olhada na cena do crime. Depois disso iremos conversar mais um pouco sobre o que aconteceu aqui.

-Tome você vai precisar disso para entrar. – Ela estendeu o cartão chave para mim. – Ninguém pode entrar na sala dele sem uma dessas.

Bingo! Uma das entradas para a sala era bem guardada e para entrar nela o assassino tinha que ser alguém da fabrica ou alguém com contatos. Podem existir outras, como a janela, mas por enquanto tudo indica que alguém aqui dentro não gostava tanto assim do bom velhinho. Peguei o cartão da mão da viúva. Deixei-a aos cuidados dos anões e voltei para a sala do morto. O corpo ainda me esperava lá sentado na sua mesa.  Algo aqui cheirava ruim, eu já tive contato o bastante com lendas e mitos para saberem que eles não podem ser derrubados tão facilmente, ainda mais um tão forte quanto o Papai Noel. Seja lá quem foi o assassino ele sabia bem o que estava fazendo. Não existem muitos profissionais nesse tipo de assassinato pelo mundo. Eu sabia bem disso afinal eu era um deles. Aproximei-me do cadáver e comecei a analisar ele e a sala em volta. O sangue pela sala indica que mesmo depois de ter a garganta cortada o Papai Noel ainda deu trabalho ao seu assassino e como o corte era o único ferimento no cadáver devo supor que ele foi pego de surpresa. Existiam marcas de pegadas de sangue pela sala. Uma delas eu identifiquei como a do Noel e a outra como a da Senhora Noel, mas isso não a indicava como assassina, afinal ela entrou na sala para checar se o marido estava vivo. Tirei a jaqueta do morto e chequei os bolsos em um deles existia uma caneta tinteiro e em outro um cartão chave igual o que a Senhora Noel tinha me dado. Ambos completamente encharcados com o sangue do seu dono. Limpei-os com um lenço que achei limpo em cima da mesa e guardei ambos no bolso da minha jaqueta. Voltei a olhar a sala em busca de entradas e saídas e as duas únicas entradas para a sala que consegui encontrar são ou a porta ou a janela, seja lá qual o assassino tenha usado o Papai Noel deveria estar virado para o lado contrario no momento do ataque. Trabalhando de frente para a porta ou observando sua fabrica pela janela e as duas me pareciam bastante aceitáveis. Chequei em cima da mesa, duas listas cheias de nome estavam em cima da mesa e ambas surpreendente estavam completamente limpas nada de sangue nelas. Uma tinha a palavra “Bons” escritas em letras grandes e a outra tinha “Malvados” escrito na mesma letra, embaixo de cada palavra uma lista de nomes.

-Talvez tenha sido alguém da lista dos malvados querendo vingança pelo carvão do ano passado. – Eu ri da minha própria teoria, já que estava completamente sozinho na sala tirando pelo cadáver e ate onde eu sei os mortos não podem rir ao menos na maior parte do tempo. Tirei um cigarro no bolso e ascendi. Primeiro fazer perguntas à mamãe Noel e as centenas de duendes pela fábrica, depois? Como eu gostaria de saber. A cena do crime estava limpa. O assassino sabia como esconder os traços. Eu fui ate a janela e a abri sem dificuldades, me perguntei se ela abria assim do lado de fora também. Joguei meu cigarro na neve e fui embora deixando o cadáver sozinho. Era hora de conversar com algumas testemunhas. Quando sai da Sala Rick estava lá a minha espera. Ele fumava um cachimbo vermelho e branco que mais parecia uma daquelas bengalas doces.

-Você irritou bastante a chefe. – Ele falou sem olhar para mim. – Nunca vi ela explodir daquela forma.

-Esse é o meu trabalho, gostando ou não. Tinha que ter certeza que ela sentia alguma coisa pelo marido.

-Ela sente?

-Minha intuição diz que sim a não ser que ela seja uma ótima atriz, não é fácil me enganar.

-Mas já aconteceu? – Silencio foi minha única resposta, mas sim eu já estive errado algumas vezes meu amigo Rick e nesses casos as coisas não acabaram bem para os envolvidos.

-Eu tenho que falar com ela. Tem alguns detalhes do crime que preciso clarear e acho que ela pode me ajudar.

-Isso não pode esperar?

-Não. – Ele suspirou de forma triste.

-Então me siga, ela esta na velha casa que ela dividia com Noel. – Ele saiu andando com o cachimbo na boca e sem opção tiver que segui-lo. Tudo que eu fiz essa noite foi seguir pessoas de um lado para o outro e isso estava começando a me deixar irritado. Não tem nada que eu odeie mais do que seguir ordens.

Rick me guiou novamente para o lado de fora da fabrica onde um pequeno carro elétrico, primeira coisa que passou na minha mente foi um carrinho de golfe, verde e decorado com faixas vermelhas esperava por nós dois. Ele subiu no banco do motorista e apontou o banco do carona para mim. Eu olhei para o carro com duvidas de que ia conseguir caber dentro dele o veiculo foi claramente feito para duendes e não humanos.

-Eu acho que isso é pequeno demais para mim.

-Besteira.  Pule dentro e vamos logo.

Eu sentei apertado do lado dele. De certa forma eu conseguir caber dentro do carro, mas conforto é algo que passou longe, tive que praticamente ficar com meus joelhos no peito e completamente encolhido para caber ali dentro. Rick olhou para mim quase caindo em gargalhada respondi com um gesto de mão nem um pouco educado. O carro entrou em movimento e fomos em direção ao fundo do complexo. Não demorou muito para eu ver a casa. Na verdade casa não é a palavra certa, estava mais para uma mansão  e a maior que eu já tinha visto na vida. Aquela casa de madeira teria feito qualquer artista de cinema se morder de inveja. Três andares que se estendiam para o infinito e além. Ela estava decorada e pronta para o natal, com direito a um boneco do Papai Noel em seu trenó no telhado e falem de megalomania. Rick assistia a minha expressão de surpresa com divertimento.

-Essa era a velha fabrica. – Ele falou. – Sabe na época que fazíamos carrinhos de madeira e bonecas em vez de iTrecos e outras tralhas tecnológicas. Aqueles sim eram bons tempos. Quando a fabrica precisou crescer Papai Noel decidiu transformar esse antigo prédio em sua casa.

Estacionamos na frente e Rick bateu na porta. Uma duende atendeu a porta.

-Desculpe, mas a Senhora Noel não esta se sentindo bem agora. – Ela falou para Rick antes do mesmo dizer qualquer coisa.

-Diga a sua chefa que eu tenho que falar com ela. – Interrompi me enfiando na conversa. – Um homem morreu hoje e eu preciso de algumas respostas.

-Está tudo bem, eu estava mesmo esperando ele. – Veio à voz da Senhora Noel do lado de dentro. – Acho que não posso fugir disso por mais tempo, tenho que encarar a realidade.

Todos temos minha Senhora Noel se não a encararmos ela volta e nós morde no traseiro.

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