Conto 18.2: Uma Historia de Natal

snow Já que o mundo aparentemente não vai acabar eu tenho que continuar com os trabalhos. Diferente dos maias eu tardo, mas não falho. Nessa segunda parte o detetive particular Jack Wolf descobre um pouco mais sobre o caso de assassinato que bate na sua porta às três da manhã. Como eu já disse no primeiro post esse é um conto de Fantasia-Noir e a parte fantástica começa a aparecer mais aqui. Minha ideia era lançar a ultima parte dele no natal, mas minha incapacidade de seguir prazos me fez começar a escrevê-lo tarde demais para isso, então devemos ter historias de Natal ate janeiro.

2

 

Saio do boxe e sigo ate a pia, uma pequena fumaça da água quente ainda enche o banheiro. Eu limpo o espelho embaçado e encaro meu velho rosto cansado e, sem nenhuma surpresa, ele me encara de volta com aqueles olhos cinza e vazios.  Passo a mão no cabelo e percebo que aos poucos os fios prateados se espalham pela minha cabeça como um câncer, substituindo os fios negros que no passado dominavam sem concorrência. Passo a espuma de barbear e me livro da barba rala que estava nascendo. Eu ligo a pia e lavo meu rosto, observo a água, misturada com a espuma de barbear, descer pelo ralo e em seguida volto a encarar o meu rosto. Sem a barba eu pareço alguns anos mais jovens, mas mesmo assim ainda pareço mais velho do que realmente sou. Quarenta anos e acho que qualquer pessoa me daria cinquenta e muitos.

Volto para o quarto e abro o armário em busca de minhas roupas de trabalho: Uma calça e camisa social; uma gravata preta; sapato social preto lustrado e por fim uma jaqueta de couro preto. Visto-me lentamente encarando a janela que da para a rua. Ainda posso ver luzes em alguns apartamentos e alguns carros passam pela noite escura. Almas perdidas da cidade. Termino de me vestir faltando apenas o casaco. Sigo ate o travesseiro e pego embaixo dele meu velho revolver de seis balas a única ferramenta de que preciso.  Coloco o revolver em um coldre e o prendo debaixo do braço para por fim esconder tudo com o casaco preto. Pego um maço de cigarro na mesa de cabeceira ao lado da cama e um isqueiro e jogo os dois num bolso da jaqueta.

Meu convidado esperava impacientemente na sala enquanto eu me tomava banho e me aprontava. Ainda não tinha tido tempo de sentar com ele e discutir o caso, mas não achava que ele saberia me informar muito mais do que já tinha dito. Alguém matou o Papai Noel, ou talvez tenha sido suicídio, não posso descartar nenhuma teoria, faltando menos de um mês para o natal. Ele, apenas mais um dos trabalhadores, então foi mandando ate mim, pois eu sou conhecido por cuidar de casos com esse tipo especial de clientela, gostando ou não disso.  Jack Wolf o Detetive Particular favorito do pé-grande. Eu me pergunto como mataram o bom velhinho, eu sei que ele com aquela barriga toda ele não é um exemplo de boa saúde, mas mesmo assim, não é fácil matar um mito, ainda mais um mito famoso e poderoso como ele.

-Ainda vai demorar ai? – Escuto a voz do duende vindo da sala. – Está retocando a maquiagem ou coisa do tipo?
-Na verdade estou. – Respondi com a maior dose de ironia que minha voz podia carregar, mas mesmo assim achei que não era o bastante para representar o meu humor. – No meu ramo de negócios o rosto é o mais importante.

-Apenas se apresse. Tem pessoas nos esperando no polo norte. – Dei uma ultima olhada na minha cama, o lugar no universo em que eu mais queria estar essa noite.  Sai do quarto desligando a luz e fechando a porta atrás de mim. Na sala o homenzinho andava de um lado pro outro de maneira irritada, um cigarro meio fumado preso na boca.

-Pronto chefe, podemos ir visitar os pinguins.

– Isso é no polo sul. – Ele me respondeu irritado, dei os ombros em um gesto de indiferença.

-Acabei de perceber que ainda não fomos oficialmente apresentados. Bem você claramente sabe meu nome, mas eu não tenho nem ideia de como é o seu.

-Rick.

-Achei que os duendes tinham nomes “mágicos” como Feliz ou Zangado.

-Isso são os anões da Disney. – Ele respondeu irritado. – Podemos ir? Eu não gosto de ficar muito tempo no mundo humano e, além disso, temos que trabalhar rápido para poder salvar o natal.

-Como pretendem fazer isso sem o Papai Noel?

-Nós cuidamos dos nossos problemas e você cuida do seu, que no caso é achar o assassino.

-Como tem tanta certeza que foi assassinato? Ate onde eu sei ele pode ter cansado de toda a pressão do natal e ter dado um fim na própria vida. Eu sei por experiência que é bem complicado matar um mito, uma lenda ou um deus e coisas desse tipo.

-Quando chegarmos você vai entender tudo.  Agora, mais uma vez, podermos ir? Estamos perdendo tempo precioso aqui.

Respondi que sim com um gesto de cabeça. Meu amigo Rick estava começando a ficar irritado e continuar nesse caminho não ia ajudar em nada minha situação. Ele pulou para fora do apartamento e ficou no corredor me esperando enquanto eu saia e trancava a porta. Segui-o pelo corredor ate as escadas no fundo e começamos a subir. Eu morava no quinto andar de um prédio de seis então por fim acabamos não subindo por tanto tempo assim, passamos do sexto andar e depois seguimos para o telhado.  Duas coisas chamaram minha atenção ao chegarmos ao telhado, primeiro foi à vista da cidade ainda iluminada mesmo no meio da madrugada, afinal de contas Nova York é mesmo a cidade que nunca dorme e a segunda, bem tinha um trenó e oito renas amarradas a ele estacionadas no meu prédio.

-Você está brincando comigo. – Deixe escapar sem pensar. Rick olhou para mim com o sorriso irônico de volta ao rosto. Como eu queria socar aquele maldito duende, mas por sorte dele eu tinha me obrigado a aprender autocontrole.

-Estava achando que eu tinha vindo como? Avião? Aquelas cadeiras são apertadas ate para mim. – Ele disse enquanto pulava para dentro do trenó. – De qualquer forma suba a bordo e logo estaremos no polo norte.

Eu me pergunto quando a minha vida se tornou esse completo caos maluco que ela é agora. Eu devo ter sido Hitler na vida passada ou algo do tipo e essa é minha punição. O trenó era feito de madeira verde e tinha o tamanho de um carro médio. Tinha espaço para duas pessoas na frente e uma carroceria de picape no fundo, eu imagino que normalmente tem um saco cheio de presentes ali. Eu observei as oito renas presas que me encaravam em silencio, minha mãe sabia o nome de todas elas, mas sempre foi acima das minhas capacidades decorar eles.

– Venha logo, ou o grande lobo esta com medo de voar?

-Eu não tenho problemas com voar, mas isso é ridículo.

-Serio? Um trenó que voa? Eu sou um duende que acabou de falar que o Papai Noel está morto e um trenó que voa é a parte ridícula dessa noite? – Eu odeio admitir, mas ele tem um ponto. Ainda relutante decidi entrar no trenó e de uma forma ou outra aproveitar a viagem. Rick sorriu para mim mais uma vez e depois começou a atiça as renas e em questão de segundos estávamos acima das nuvens. Eu já vi muita coisa que as pessoas iriam considerar loucas, mas isso ainda ganha o premio.

-Quantas horas daqui ate o Polo Norte? – Perguntei ao meu piloto.

-Na verdade devemos estar chegando em menos de um minuto.

-Eu não acho que isso seja fisicamente possível.

-Esqueceu onde está? Esse é o trenó do Papai Noel o mesmo trenó que literalmente cruza o mundo todo em uma noite fazendo parada em quase todas as casas.

-Mesmo assim como isso funciona? – Eu perguntei, mas no fundo eu já sabia a reposta. Sempre que eu me batia com algo do tipo eu recebia sempre a mesma resposta.

-Magia.

Eu estava preparando uma resposta inteligente quando o trenó começou a descer e eu pude ver pela primeira vez a fabrica do Papai Noel se aproximando. Eu estava realmente no Polo Norte e a viagem tinha durado menos de um minuto. A fabrica era, bem, uma fabrica. Imensos prédios cinzentos praticamente colados uns aos outros e um punhado de chaminés cuspindo fumaça negra para o céu, eu não acho que eles estejam ligando para o meio ambiente por aqui. Magia? Inocência? Beleza? Não na fabrica do Papai Noel. O trenó ia descendo e eu pude ver uma pista de aterrissagem surgindo na neve.

-Isso não é bem exatamente o que eu estava esperando.

-No passado ela foi menor, mais rustica e bonita, porem tivemos que nós adaptar aos tempos modernos.

-Como ninguém nunca achou isso aqui?

-Magia. – Eu realmente odeio essa resposta.

O Trenó pousou suavemente e Rick pulou para fora. Diversos outros duendes estavam brotando de todos os cantos. Soltando as renas e levando elas para seus estábulos. Rick acenou para que eu pulasse fora e eu o segui. Estava frio, mas não tão frio como imaginava, a barreira magica que mantem as pessoas longe deve funcionar como controle de temperatura também. Ascendo mais um cigarro e fechei os olhos deixando meus outros sentidos dominarem. Eu podia sentir o cheio do ferro, da neve e dos duendes. Assim como podia escutar o som incansável das maquinas  trabalhando  para fazer  os presentes de natal, de um natal que ate onde eu sei pode nunca vir a acontecer. Por fim a voz de Rick me tirou do meu pequeno transe.

-Bem vindo ao Polo Norte, agora vamos aos trabalhos.

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